JUVINO CÉSAR PAES BARRETO nasceu no município pernambucano de Aliança, a
2 de fevereiro de 1847 e faleceu em 9 de janeiro de 1901, filho do coronel
Leandro César Paes Barreto, republicano e insurgente da Revolução Praieira
(1848), e Umbelina de Medeiros César.
O Cel. Leandro,
seu pai, era homem de caráter, temperamento de lutador e de abnegado, de
verdadeiro patriota. Tomara parte na revolução de 1848, em que comandara as
tropas rebeldes, demonstrando, nos encontros com as forças legais, muita
bravura. Fracassada a revolução, foi o Cel. Leandro preso para Fernando
Noronha. Voltando ao seio da família, depois de indultado, com os demais
companheiros, pelo Governo Imperial, dedicou-se inteiramente á educação dos
filhos. Quando, em 1856, o cólera, ceifando milhares de vidas cobria de luto e
de dor a sua terra, o Cel. Leandro num impulso legitimo de desprendimento, de
abnegação e de coragem, deixou a segurança do lar, dedicando-se inteiramente a
assistência ás vitimas do terrível mal, visitando-as, medicando-as, ajudando-as
nos transes mais pungentes. E pagou com o sacrifício da própria vida, vítima
também que fora do cólera, a sua inexcedivel dedicação aos infelizes, aos
sofredores.
Aos 10 anos de
idade, Juvino ficou órfão de pai e passou a trabalhar como caixeiro viajante,
em um estabelecimento de Nazaré/PE. À noite, ele ainda trabalhava em uma
pequena oficina de encadernação, instalada em sua própria residência. Em 1869,
associou-se ao irmão Júlio Barreto, estabelecendo-se em Macaíba, neste Estado.
Comercializava produtos adquiridos no Guarapes (Macaíba), à época importante
núcleo comercial.
Em 1871, ao
agitar-se a ideia abolicionista, fundou Juvino Barreto, em Macaíba, a
“Libertadora Macaibense”. Decisiva e digna dos maiores aplausos foi a sua ação
á testa dessa sociedade pela libertação dos escravos, auxiliando-os em suas
fugas perigosas, tudo fazendo ao seu alcance, ao alcance de sua coragem e de
sua dedicação sem limites, para livrá-los do jugo humilhante, dos sofrimentos,
da ferocidade de impiedosos e desalmados feitores e senhores. A sua atuação,
nessa primeira fase da luta abolicionista, valeu-lhe a condecoração do “Habito
da Rosa”, com que foi agraciado.
Juvino Barreto
casou-se em 28 de janeiro de 1873, com Inês Augusta Paes Barreto, filha de
Amaro Barreto, tendo Juvino, nessa época, 27 anos, e Ignez Barreto apenas
quinze. Juntos, tiveram 14 filhos.
Transferindo-se
para o Recife, ali passou a dirigir a firma Júlio & Irmão. Voltou em
seguida, passando a residir com o sogro e com um cunhado, Fabrício Maranhão, no
Porto de Guarapes, em Macaíba, onde restauraram a importante casa fundada pelo
Major Fabricio Gomes Pedroza.
O homem que teve
o topete de montar a primeira fábrica de tecidos do estado do Rio Grande do
Norte. Não podia deixar de ter sido um homem audacioso. Juvino sonhou um dia
construir uma fábrica de tecidos em Natal. Mais tarde, atraído por incentivos
fiscais à industrialização no Rio Grande do Norte (leis nº 732, de 09.08.1875,
e 773, de 09.12.1876), adquiriu um terreno de 8.000 m² na rua da Cruz (antiga
Junqueira Aires, hoje Câmara Cascudo) para investir no ramo de fiação e
tecelagem, logo iniciando as obras de construção. Criou a Vila Barreto (uma
parte ficava onde atualmente funciona a Caixa Econômica da Ribeira, a outra
parte ficava onde hoje funciona o Colégio Salesiano).
Depois, em
Recife, no furor da luta abolicionista, já em 1887, fundou Juvino Barreto, com
Barros Sobrinho, João Ramos, José Mariano e tantos outros, Célebre “Clube do
Cupim”, sendo também escolhido pelos seus companheiros de ideal para um dos
diretores da “Sociedade Abolicionista Pernambucana”. No ano seguinte, a
Princesa Isabel assinava a célebre LEI ÁUREA, de 13 de Maio, da libertação dos
escravos, por que tanto lutaram esses abnegados brasileiros, dentre os quais
Juvino Barreto teve papel preponderante.
Comprou na
Inglaterra as mais modernas máquinas existentes na época, com o compromisso de
pagá-las com os lucros obtidos. Em 24 de maio de 1886, lançou a pedra
fundamental do edifício fabril, em cerimônia presidida pelo presidente da
província, José Moreira Alves da Silva e, enfim, inaugurou a Fábrica de Fiação
e Tecidos Natal em 21 de julho de 1888. Junto à fábrica, Juvino construiu vila,
escola, capela e prestou assistência médica completa aos seus operários. A
benção foi dada pelo vigário, Padre João Maria.
Inicialmente,
tinha a fabrica 48 teares, 1.600 fusos, e 80 operários. As primeiras peças de
tecido saídas de seus teares foram entregues, no dia 29 do mesmo mês, ao
virtuoso vigário Padre João Maria, já canonizado Santo pela gente de nossa
terra, para que fossem distribuídas aos pobres.
Naquele mesmo
ano de 1888, a 23 de Setembro, fundava Juvino Barreto, com Felix Mascarenhas e
alguns outros, cujos nomes não consegui descobrir nos arquivos e notas que
rebusquei, a “Sociedade de São Vicente de Paulo”, de historia emocionante e
simples, toda vivida sob os tetos humildes de palhoças e casebres, plantados
nas encostas dos morros, nos areais distantes e no descampado dos tabuleiros.
A Fabrica de
Tecidos conquistou em pouco tempo o operariado modesto de nossa terra, e os
empregos na Fabrica de Seu Juvino, como a chamavam, eram disputados à medida
que a mesma ia se desenvolvendo e novas vagas surgiam. Todos queriam tê-lo como
chefe, sabida como era a sua inexcedível bondade, ao par de um elevado e nobre
sentimento de justiça.
Vencedora a luta
abolicionista, dedicou-se ele, com o mesmo ardor, com o mesmo elevado
idealismo, á luta pela implantação da república, já em plena efervescência. E,
em 27 de janeiro de 1889, com um grupo à frente do qual estavam Pedro Velho,
João Avelino Pereira de Vasconcelos, Zacharias Monteiro, Augusto Severo e
outros, fundou o “Clube Republicano”, na residência do Cel. João Avelino, ao
lado da matriz do Bom Jesus, no mesmo lugar em que foi construído o nosso “Grande
Hotel”.
Durante a
revolta da Armada, em 1892, organizou Juvino Barreto, em Natal, o “Batalhão
Silva Jardim”, tendo mais de uma vez se oferecido ao Marechal Floriano Peixoto,
para combater ao lado das forças legais, fiel á tradição de seus antepassados e
ao elevado sentimento de sadio patriotismo que era uma das características
marcantes do seu caráter.
Em frente a
fábrica ficava a rica residência do proprietário, que ainda hoje se pode ver no
começo da ladeira que termina na cidade alta, hoje Avenida Junqueira Ayres na
Avenida Câmara Cascudo. A residência do proprietário é o atual Colégio
Salesiano.
Ao lado da
fabrica de tecidos, nesta mesma rua e justamente em frente ao prédio onde
reside o nosso grande historiador Câmara Cascudo, construirá Juvino Barreto a
capela-escola “São José”, onde funcionava um curso de alfabetização para os
filhos dos operários, e onde também lhes era ministrado o ensino religioso.
As Imagens dessa
antiga capela de “São José foram transferidas para a capela da “Vila Barreto”,
e hoje se encontram na capela desta Casa Salesiana, presidindo, imóveis, do
alto de seus altares, ao desdobramento da obra de seus doadores.
Segundo Câmara
Cascudo, Juvino Barreto era um homem “pequeno, forte, moreno, barba cerrada,
sempre de casimira, com um revólver metido entre a calça e o colete, revólver
que jamais disparou’’. Juvino Barreto, era católico fervoroso, caridoso e de
grande visão social, tendo sido considerado um modelo ideal de patrão. Foi o
fundador da “Libertadora Macaibense”, conseguindo um grande número de alforrias
de escravos. Foi condecorado com a Imperial Ordem da Rosa, pelos serviços
prestados à causa abolicionista. Também foi sócio do Clube do Cupim e Oficial
Superior da Guarda Nacional.
Segundo vários
outros historiadores, era generoso e humanitário: implantou um programa de
saúde para os seus empregados e proveu recursos para fins sociais, do que
surgiriam vários estabelecimentos de ensino, dentre os quais os Colégios
Imaculada Conceição e Santo Antônio. Sua mansão residencial foi doada, ainda em
vida, à Ordem dos Salesianos.
Já no leito de
morte, Juvino Barreto chamou a sua esposa para um último pedido: “Que, de sua
herança, reservasse dez contos de réis para fundação de uma casa para educação
de meninos; dez contos de réis para uma casa para educação de meninas, e dez
contos para a fundação de um hospital”.
E, ás dez horas
do dia nove de abril de 1901, no salão de frente do primeiro andar desta casa
que ora nos abriga, deixou de pulsar aquele grande coração. O lutuoso
acontecimento abalou profundamente a pacata Natal de 53 anos passados. O
comercio cerrou suas portas. Nos edifícios públicos, as bandeiras foram
hasteadas em funeral. Imensa multidão, vinda dos mais longínquos lugares,
cercou a casa do grande morto, na ânsia de vê-lo mais uma vez, de prestar-lhe a
sua última e sentida homenagem.
O enterro
realizou-se no dia seguinte, saindo o féretro às sete horas da manha, para a
próxima estação da estrada de ferro, donde foi transportado, em carro fúnebre,
para o cemitério do Alecrim. Os enterros importantes, naquela época, eram
feitos a trem. Os vagões que formavam a longa composição estavam repletos. Ao
longo dos trilhos até a parada do “Oitizeiro”, o povo, em silencio, com os
olhos marejados de lagrimas, ajoelhava-se à sua passagem.
No cemitério, a
multidão era imensa. A cerimônia triste, grandiosa e solene do enterro, contou
com a presença de quase 3.000 pessoas. Uma verdadeira parada de dor.
Naquele dia, o
cemitério foi fechado. A’ borda do túmulo, falaram Pedro Avelino e o inolvidável
médico e poeta Segundo Wanderley que, entre outras coisas belas, disse o
seguinte: “Faiem neste momento por mim os gemidos aflitivos que convulsionam os
seios inconsoláveis dos desherdados da sorte; falem por mim os soluços
emocionantes que se desprendem dos lábios sequiosos da inocência, do coração
palpitante da castidade; falem por mim estas manifestações eloquentes de todas
as classes no requinte espontâneo de sua admiração e de seu respeito; falem por
mim os protestos altísonantes do povo Rio Grandense na eclosão indefinível do
seu sentimentalismo, no fervor inefável de sua idolatria; fale por mim, em
suma, esta caudal enorme, esta parada de luto, esta apoteose de lágrimas onde
as consciências genuflexas levantam n’um extasis sobrenatural o estandarte
sublime da saudade e da gratidão”.
Os teares eram
impulsionados por vontade férrea de seu dono. Quando este morreu, os teares
perderam o entusiasmo e algum tempo depois tiveram a mesma sorte daqueles da
fábrica de linhas da Pedra, lá em Alagoas. Da fábrica de tecidos ficou apenas a
chaminé.
Em seu
testamento, o empresário deixou em torno de dez mil contos de réis para a
construção de um colégio para meninos, outro para meninas. Também deixou parte
dessa herança para a construção de um hospital. Com efeito, parte desse recurso
foi para construir o Colégio Santo Antônio, que foi administrado pelos irmãos
Maristas, e o colégio da Conceição, cuja administração ficou a cargo das irmãs
Dorothéias.
A outra parte
que seria destinada à construção do hospital, o governador Alberto Maranhão,
casado com uma filha de Juvino Barreto, fez aquisição de uma mansão para o
Estado, que na época pertencia à família, a casa estava situada no “Monte”, em
Petrópolis. Depois de reformado o Hospital de Caridade foi transferido para lá,
a partir do lugar onde hoje se encontra a Casa do Estudante.
Em 12 de
setembro de 1909, o hospital foi inaugurado. O hospital, em homenagem a Juvino
Barreto, ganha o nome do empresário. Em 1928, é arrendado para a Sociedade
Brasileira de Assistência Hospitalar, entidade que ao assumir a direção muda o
nome do hospital para “Hospital Miguel Couto” (hoje, Hospital Universitário
Onofre Lopes).
Nesta época
Januário Cicco diplomou-se como médico no ano de 1906 na instituição baiana.
Três anos após o término do curso, Januário Cicco pôs em funcionamento o
Hospital da Caridade Juvino Barreto (atual Hospital universitário Onofre
Lopes), durante o governo estadual de Alberto Maranhão, e, consequentemente,
ocupando o cargo de diretor em 23 de agosto do corrente ano.
O Hospital de
Caridade Juvino Barreto pouco a pouco foi se tornando menos religioso e mais
secular, devido aos investimentos públicos efetuados pelo governo estadual;
cumpria em Natal essa função apontada por Márcia Regina de formação de uma rede
de atendimento público, mesmo ainda tendo como princípio o atendimento aos
pobres e desvalidos da sociedade.
Em 1944, é
fundado o abrigo para idosos pela Legião Brasileira de Assistência. A
instituição homenageia o grande filantropo colocando o seu nome no abrigo. Essa
homenagem se dá pela grande importância do empresário no desenvolvimento da
cidade, bem como sua participação relevante dentro das obras filantrópicas.
INSTITUTO JUVINO BARRETO, NATAL, RIO GRANDE DO NORTE
FONTE –
FATOS E FOTOS DE NATAL ANTIGA


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